BAGDA CAFÉ

BAGDA CAFÉ

22/07/2021 0 Por Divino Leitão

OUT OF ROSENHEIM ( BAGDA CAFÉ – 1987)

Coloquei ontem a noite e já recebi o “aviso” de minha mulher que o filme é “ruim”. Perguntei se tinha assistido inteiro e porque era ruim, ela não sabia. Deixei passar e — como de costume — em alguns minutos ela dormia.

Eu sabia que não era um filme ruim, na verdade lembrava pouco do filme, afinal fazem mais que 34 anos que o vi e só lembrava que tinha o Jack Palance no elenco e nem lembrava bem qual era seu personagem.

Assim que o filme começa, com a doce Marianne Sagebrecht — que interpreta a protagonista Jasmin Munchgstettner — arrastando uma enorme mala em uma estrada perdida dos EUA, próxima de Las Vegas e do fim do mundo.

Ela acaba chegando em uma mistura de posto de combustível, hotel e um café, bem no meio do “nada” onde vivem algumas pessoas completamente fora da caixa, sob o “comando” de Brenda, uma mãe e avó, que vemos ser abandonada pelo marido logo no início do filme.

Jasmin chega ao lugar em meio a este caos e até então só foi sugerido que ela também havia sido abandonada pelo marido, em uma viagem de férias, pelos EUA.

Aos poucos a história começa a fazer algum sentido e os personagens são apresentados, um a um, pelo excelente diretor Percy Adlon, que também é um dos roteiristas.

A música tema do filme chama-se “Calling You” e é tocada diversas vezes, como uma espécie de tema da protagonista, um lindo blues, criado especialmente para o filme e cuja letra fala um pouco da história. Foi indicada para o Oscar, mas não venceu.

Jasmin muda o lugar, mexendo com todos os personagens, com seu jeito simples e humilde, especialmente com Brenda, que estava meio que “a beira de um ataque de nervos” e aos poucos vai mostrando que é uma pessoa do bem.

Não há vilões ou mocinhos no filme, talvez o único vilão seja o deserto inclemente, que é representado mais pela própria estrada, ferrovia ou uma caixa d´água, sempre destacada nas lindas cenas, com uma fotografia incrível. As mazelas do dia-a-dia e nossa forma errada de lidar com elas também podem ser consideradas como vilões, inclusive algumas bem simples, que as vezes elevamos a categoria de “tragédias”, sem necessidade.

Não existe propriamente uma história, exceto a que é contada, mas cada personagem tem uma história que é mais sugerida do que contada, fica a critério do espectador contar para si mesmo a história de cada personagem, inclusive a da própria Jasmim, já que nem mesmo a briga que a deixou abandonada em uma estrada no deserto é contada, temos que imaginar o que ocorreu.

O que me chamou a atenção é que vivemos uma época onde aparentemente a humanidade clama por mais integração social e um filme, com de mais de 35 anos consegue mostrar que tais mazelas já estavam bem resolvidas em 1987, portanto a insistência em lidar com elas está nos levando para erros e não acertos.

Temos um pouco de tudo: crise conjugal, homossexualismo, velhice, prostituição, sexo, filhos, segregação racial e até mesmo a questão da imigração. Porém nada é tratado além da simples sugestão, já que em nenhum momento existe necessidade de ir além de passar de forma bem leve sobre cada tema, sem entrar em suas complexidades.

É um filme que parece apenas um sonho, daqueles que se a gente acordar, volta a sonhar de novo e certamente vai fazer pensar em algo que já vivemos, difícil alguém não ter passado por pelo menos uma das sugestões.

Bagdad Café (1987) - Crítica | Leitura Fílmica

Se já assistiu, vale ver de novo, se nunca assistiu, fique feliz por ter esta cópia, com alta qualidade e se ao começar a ver teve uma má impressão do filme, dê uma chance a você mesmo de ver uma obra prima do cinema.

O próprio título, que é uma feliz mudança em relação ao original, “Out of Rosenheim”, bem mais literal e  menos poético, dá margem a diversas interpretações. Bagdá costuma ser sinônimo de diversidade, então uma parada de estrada com este nome acaba sendo bem sugestivo e o que mais tem ali é mesmo a diversidade.

O filme tem uma versão de 91 minutos, que é a que vi no cinema e uma outra com 108 minutos, que é a que vi no Prime Vídeo, sendo que mesmo não lembrando do filme, pude perceber quais foram as cenas que foram retiradas no cinema e pode crer que fazem falta, portanto recomendo assistir a versão mais completa.